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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

PERMANECENDO NA PALAVRA


PERMANECENDO NA PALAVRA

 

Um tema constante nos autores do Novo Testamento é que o povo de Deus deve ser firme. Por um lado, devemos resistir às pressões morais e intelectuais do nosso mundo contemporâneo, recusando-nos a ser molda­dos pelos padrões da época. Não podemos nos permitir tropeçar, escorregar e cair na lama da relatividade, ou ser arrancados do nosso ancoradouro e ser levados pela cor­renteza. Por outro lado — e este é o aspecto positivo — somos exortados a perseverar na verdade que recebemos, apegando-nos a ela como um abrigo seguro na tempestade e a ficar firmes em seu fundamento.
Vejamos alguns exemplos desse tipo de exortação, dados por três dos maiores contribuidores do Novo Testamento.
Paulo: "Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa."
Hebreus: "Importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos."
João: "Permaneça em vós o que ouvistes desde o prin­cípio." "Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem assim o Pai, como o Filho."
O que há de comum nestas citações é o reconhecimento de que certas verdades haviam sido "ensinadas" ou "trans­mitidas" pelos apóstolos e,   portanto, tinham sido "ouvidas" ou "recebidas" pela igreja. Agora esse corpo de doutrina era um depósito sagrado a ser guardado. Ele tinha uma qualidade normativa: a igreja deveria permanecer nessa doutrina e apegar-se a ela, não se afastando dela nem indo além dela, de forma a contradizê-la.
Parte da recomendação final de Paulo a Timóteo elabora este tema. Mas, para compreendermos as suas implicações, precisamos ter o texto diante de nós. Ele se encontra em  2Timóteo 3.1 - 4.8.
1Sabe, porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; 2Pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, 3desafeiçoados, impla­cáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem,4traidores, atrevidos, enfatuados, antes inimigos dos prazeres que amigos de Deus, 5tendo forma de pie­dade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes.
6Pois entre estes se encontram os que penetram sor­rateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias pai­xões, 7que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. 8E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; 9eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles.
10Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, per­severança, 11as minhas perseguições e os meus sofrimen­tos, os quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra — que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. 12Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão per­seguidos. J3Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados.

14Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. 15que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. 16Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a edu­cação na justiça, 17fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.
1Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: 2prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina. 3Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; 4se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. 5Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.
6Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. 7Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. 8Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.

Firmes na Palavra

A exortação de Paulo a Timóteo foi dada dentro do contexto da sociedade em que ele vivia (3.1-13). Ela não era, de manei­ra alguma, favorável ao evangelho. Este, por sua vez, não podia ser reformulado a fim de acomodar-se às idéias e padrões daquela. Pelo contrário, Paulo estava plenamente consciente de que havia entre a Palavra e o mundo uma incompatibilidade radical. "Sabe, porém, isto", escreveu ele:  "Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis."
É importante salientar que ao falar em "últimos dias" o apóstolo não estava aludindo a uma época futura que viria logo antes da volta de Cristo. No versículo 5 ele diz a Timóteo que "fuja" das pessoas que ele estava descrevendo. Como Timóteo poderia evitá-las, se elas ainda não tivessem sequer nascido?... Na perspectiva do Novo Testamento, os "últimos dias" começaram com Jesus Cristo. Foi ele quem os introduziu. Os últimos dias são, pois, estes dias, os dias em que Timóteo viveu e em que nós também vi­vemos, ou seja, todo o período entre a primeira e a segunda vindas de Cristo. E quais são as características dos últimos dias? Três delas parecem destacar-se na descrição de Paulo.
A primeira é amor mal direcionado. É impressionante ver que, das dezenove marcas distintivas que o apóstolo menciona (vs. 2-4), seis têm a ver com amor: "...os homens serão egoístas [amantes de si mesmos], avarentos [amantes do dinheiro], ...desafeiçoados [sem amor], ...inimigos do bem[não amantes do bem], ...antes amigos dos prazeres que amigos de Deus." A expressão "desafeiçoados" deve ser entendida como "sem verdadeiro amor". Afinal de contas, as pessoas em vista não são completamente desprovidas de amor: elas amam a si mesmas, amam o dinheiro e amam os prazeres. O eu, o dinheiro e os prazeres são objetos inadequados do amor humano. Eles podem até virar idola­tria, quando tiram de Deus o lugar que lhe é devido como Aquele que deve ser amado com todo o nosso ser. Hoje em dia, porém, o amor mal direcionado está em toda parte. O egoísmo, a avareza e o hedonismo predominam, enquan­to que o primeiro e o segundo mandamentos, de amar a Deus e amar o nosso próximo, são negligenciados. Além disso, quando o amor das pessoas está voltado para o objeto errado, todos os seus relacionamentos ficam errados. Elas se tornam "avarentas, jactanciosas, arrogantes, blasfemadoras, desobedientes, ... ingratas, ... implacáveis, caluniadoras... cruéis" (vs. 2 e 3).
A segunda característica de nossos tempos pode ser chamada de religião vazia. Nossos contemporâneos são descritos como "tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder" (v. 5). Pode parecer estranho que uma pessoa egoísta possa ser também religiosa. Mas acontece. Na verdade, é possível que a religião, cujo propósito é expressar adoração a Deus, seja pervertida e transformada em um meio de alimentação do ego. O nome certo para essa distorção doentia   é hipocrisia, atitude que Jesus atacou veementemente. Tal religião se evidencia em "forma" sem "poder", demonstração exterior sem realidade interior. É igualmente inimiga do evangelho, pois um cristão nominal torna as pessoas resistentes ao verdadeiro cristianismo. Terceiro, os últimos dias se caracterizam pelo   culto a uma mente aberta. Paulo descreve aqui pessoas que "apren­dem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade" (v. 7). Elas ficam sentadas em cima do muro e recusam-se a descer, seja para um lado, seja para o outro. Seu lema é a tolerância. Determinadas a evitar o sofrimento de chegar a conclusões definitivas, elas fazem da "mente aberta" o seu   amuleto. Não suportam aquilo   que C. S. Lewis chama de "o tirano apogeu da revelação", dando muito maior preferência ao crepúsculo do livre pensamen­to. Elas subestimam a distinção que Allan Bloom estabe­leceu recentemente entre dois tipos de  "abertura":   "a abertura da indiferença... e a abertura que nos convida a ir em busca de conhecimento e convicção". Este último é um dos aspectos da virtude cristã da humildade: o re­conhecimento de que a nossa compreensão é temporária e incompleta e de que precisamos estar sempre tentando aumentá-la. O primeiro tipo de abertura, por sua vez, além de ser um insulto à verdade, é também pessoalmente arriscado. Como disse um bispo americano, ele nos expõe ao perigo de termos a mente tão aberta que o nosso cérebro acaba caindo!
Eis aqui, pois, três características do nosso tempo que as Escrituras criticam firmemente e nos aconselham evitar.
Nós devemos amar a Deus e ao nosso próximo e não desviar o nosso amor para nós mesmos, para o dinheiro ou para o prazer. Devemos valorizar a realidade e o poder da religião acima de suas expressões exteriores. E devemos submeter-nos humildemente à revelação de Deus e não cultivar um agnosticismo aguado e barato, sem exigências.
Assim, Paulo exorta Timóteo a ser diferente do mundo que o cerca. Depois de descrever essas inclinações peca­minosas, Paulo escreve duas vezessu de, ou "Tu, porém" (vs. 10 e 14). Com estas palavras o apóstolo introduz duas admoestações a Timóteo: que ele resista ao espírito do mundo e que fique firme contra este. A primeira exortação enfoca o que Timóteo já conhece acerca de Paulo (vs. 10 a 13): seu "ensino, procedimento, propósito", como tam­bém sua "fé, longanimidade, amor, perseverança, ...perse­guições, ...sofrimentos". Timóteo havia visto com seus próprios olhos o ministério de Paulo, inclusive a oposição e a perseguição que ele tivera de suportar em Antioquia, Icônio e Listra (v. 11). Pois o fato é que "todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perse­guidos" (v. 12), já que "os homens perversos e impostores" que rejeitam o evangelho "irão de mal a pior" (v. 13).
Assim o apóstolo coloca em contraposição os baixos padrões do mundo e o seu próprio ensino e conduta. Os dois estavam em inconciliável antagonismo um com o outro. Daí a perseguição que ele tivera de suportar. Quanto a Timóteo, se era para ficar firme, do lado de Paulo e contra o mundo, ele, sem dúvida alguma, iria sofrer também.

Permanecendo na Palavra

A menção que Paulo faz aos "homens perversos e impos­tores", "enganando e sendo enganados" e que iriam "de mal a pior" (v. 13) leva-o ao segundo "Tu, porém". Agora, ao invés de simplesmente olhar para trás e remontar ao seu ensino, conduta e sofrimentos passados, dos quais Timóteo já tinha conhecimento, ele olha também para o futuro: "Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste" (v.14). Estes "mestres" de quem Timóteo havia aprendido são provavelmente, primeiro, sua mãe e sua avó, que na in­fância lhe haviam ensinado o Antigo Testamento (v. 15, cf. 1.5), e, depois, o apóstolo, cujo "ensino" (v. 10) Timóteo conhecia e que chegou até nós preservado no Novo Tes­tamento. Assim, Paulo coloca em contraste dois grupos de ensinadores: de um lado, os impostores e enganadores do versículo 13; e, do outro lado, a mãe de Timóteo e o seu mentor (o próprio apóstolo), que lhe haviam ensinado as Escrituras.
Nós mesmos, que vivemos no final do século XX, pre­cisamos atentar para a mesma exortação. Não podemos ser como varas sopradas pelo vento. Não vamos nos curvar diante das tendências predominantes na sociedade, com sua avareza e materialismo, seu relativismo, sua rejeição de todo e qualquer padrão absoluto de verdade e de bondade. Pelo contrário, devemos continuar fiéis à Escritura do Antigo e do Novo Testamento. Mas, por quê? O que é a Escritura, para ocupar um lugar tão importante em nossas vidas? O apóstolo segue adiante e passa a destacar três dos seus aspectos fundamentais.
Primeiro, as Escrituras são capazes de tornar-nos sábios para a salvação (versículo 15, NVI). Seu propósito primor­dial é prático. Mais do que um livro-texto, a Bíblia é um manual, um guia, mais um livro de salvação do que um livro de ciência. Não estamos dizendo com isso que os relatos bíblicos e os científicos do mundo são conflitantes, mas que eles se complementam. E tem mais: o propósito de Deus na Escritura não é revelar fatos que podem ser descobertos pelo método científico da observação e da ex­periência, mas, sim, revelar verdades que estão além do escopo da ciência, e particularmente o caminho da salvação de Deus através de Cristo.
É por isso que Jesus Cristo mesmo é o centro da revelação bíblica, já que ela dá testemunho dele. Como disse J.-J. von Allmen, "o centro da Escritura (que a resume e a torna viva) ou a mensagem central da Escritura (... que a explica e justifica) ...é Jesus Cristo. Ler a Bíblia sem encontrá-lo é lê-la erradamente, e pregar a Bíblia sem proclamá-lo é pregá-la falsamente." É porque a Escritura nos instrui para a salvação que ela nos instrui acerca de Cristo, através de quem nós recebemos a salvação pela fé. Além disso, a razão de amarmos a Bíblia é que ela nos fala de Cristo. Ela é a representação de Deus, o retrato de Cristo que Deus nos deu.
Segundo, a Escritura é inspirada por Deus. A expressão mais conhecida da ERAB consiste de três palavras — "inspirada por Deus" — que equivalem à expressão grega theopneustos. Isto indica que a Escritura é a Palavra de Deus, falada por Deus ou soprada pela própria boca de Deus. A combinação implícita de boca, sopro e palavra nos mostra que o modelo de inspiração que se tenciona aqui é o da fala humana. Afinal, falar é comunicar de uma mente para outra mente. Nós geralmente guardamos para nós mesmos o que está "em nossa mente". Mas quando falamos, reves­timos os pensamentos de nossas mentes com as palavras da nossa boca.
Observe-se também que o texto diz "Toda Escritura é inspirada por Deus" (versículo 16, ERAB). A ERC, por sua vez, traduz esta sentença da seguinte forma: "Toda a Escritura divinamente inspirada por Deus é proveitosa...". Esta é, com quase toda certeza, uma tradução incorreta, pois, se "toda Escritura inspirada... é proveitosa", isso implica em que deve haver outras Escrituras que não são inspiradas e, portanto, não são proveitosas. Mas, em primei­ro lugar, o conceito de "Escritura não inspirada" é uma contradição de termos, pois a palavra "escritura" simples­mente significa "escrito inspirado". Em segundo lugar, a ERC omite, sem suficiente fundamento, a palavrinha kai, que significa "e" ou "também". Isto mostra que Paulo não está fazendo uma declaração ("Toda a Escritura divina­mente inspirada é proveitosa"), mas duas declarações ("Toda a Escritura é inspirada e proveitosa"). Com efeito, ela nos é útil e proveitosa justamente por ser inspirada por Deus.
No entanto, nós não devemos deturpar a verdade da inspiração. Quando Deus falou, ele não falou para o espaço. Nem escreveu documentos que deixou por aí para serem descobertos,  como Joseph Smith  (fundador da Igreja Mórmon) reivindica com relação a suas placas de ouro. Deus tampouco ditou a Escritura para secretários que não tiveram nisso qualquer participação, como os muçulmanos acreditam que Alá ditou o Alcorão a Maomé em árabe. De maneira alguma. Ao falar em processo de inspiração, nós estamos dizendo que os autores humanos, mesmo enquanto Deus falava para eles e através deles, estavam eles mesmos ativamente engajados na pesquisa histórica, reflexão teo­lógica e composição literária. Afinal, muito da Escritura é narrativa histórica e cada autor tem sua própria ênfase específica e seu próprio estilo literário. A inspiração divina não dispensou a cooperação humana nem deixou de fora as contribuições peculiares a cada autor.   Assim, "inspi­rado por Deus" não é a única avaliação que a Escritura faz de si mesma, uma vez que a boca de Deus não foi a única boca envolvida em sua elaboração. A mesma Escritura que diz "a boca do Senhor o disse" diz também que Deus falou "por boca dos seus santos profetas".    Mas,    então, a Escritura saiu da boca de quem: de Deus ou dos profetas? A única resposta que encontramos na Bíblia é "de ambos". Na verdade, Deus falou por intermédio de autores humanos de tal maneira que suas palavras eram simultaneamente palavras deles, e as palavras deles eram simultaneamente as dele. E isso que significa   a dupla autoria da Bíblia. A Escritura é igualmente Palavra de Deus e palavras dos seres humanos. Ou melhor, ela é a Palavra de Deus através das palavras dos seres humanos.
É essencial que se mantenham juntas as duas autorias. Alguns teólogos, tanto antigos como modernos, católicos e protestantes, têm se referido às duas naturezas de Cristo como se isto fosse uma analogia. O paralelo, se bem que não seja exato, é esclarecedor. Ao tratar da pessoa de Cristo (que tanto é Deus quanto humano), nós não devemos, nem afirmar a sua divindade, negando assim a sua humanidade, nem afirmar a sua humanidade, negando portanto a sua divindade, mas, sim, afirmar tanto uma quanto a outra, recusando-nos a deixar que qualquer uma delas contradiga a outra. De semelhante modo, na nossa doutrina da Es­critura nós não devemos, nem afirmar que ela é a Palavra de Deus, negando assim que ela seja palavras de seres humanos (o que seria fundamentalismo), nem afirmar que ela é palavras de seres humanos, de maneira a negar que ela seja a Palavra de Deus (o que seria liberalismo), mas, sim, afirmar os dois de igual maneira, recusando-nos a permitir que uma coisa contradiga a outra. Assim, por um lado, Deus falou, determinando o que ele queria dizer, mas sem abafar a personalidade dos autores humanos. Por outro lado, os seres humanos falaram, usando livremente suas faculdades, mas sem distorcer a verdade que Deus estava falando através deles. Não temos o direito de declarar que essa combinação é impossível. Dizer isso, escreveu Dr. J. I. Packer, seria indicar uma falsa doutrina de Deus —neste caso, particularmen­te de sua providência. ... Pois isso pressupõe que Deus e homem encontram-se em um relacionamento tal, um com o outro, que é impossível que ambos sejam livres agentes na mesma ação. Se o homem age livremente (i.e., voluntária e expontaneamente), Deus não o faz, e vice-versa. As duas liberdades são mutuamente excludentes. Mas as afinidades desta idéia são com o Deísmo, e não com o teísmo cristão... O único jeito de acabar com esse raciocínio enganoso é compreendendo a idéia bíblica da operação convergente de Deus em, com e através do livre funcionamento da própria mente humana.
A maneira como nós entendemos a Escritura afeta a maneira como nós a lemos. A sua dupla autoria, espe­cialmente, requer de nós uma dupla abordagem. Já que a Escritura é a Palavra de Deus, nós deveríamos lê-la dife­rentemente de qualquer outro livro — sobre os nossos joelhos, com humildade, reverência e oração, pedindo ao Espírito Santo que nos ilumine. Mas, uma vez que a Escritura é também palavras dos seres humanos, nós deveríamos lê-la como lemos qualquer outro livro, usando a nossa mente, pensando, ponderando e refletindo, considerando atenta­mente suas características literárias, históricas, culturais e lingüísticas. Esta combinação de humilde reverência com reflexão crítica é mais do que importante: ela é indispen­sável.
Terceiro, a Escritura é útil (vs. 16-17). Ela pode fazer muito mais do que instruir-nos para a salvação (v. 15):   é também "útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (v. 16). Em outras palavras, ela é proveitosa, tanto para a doutrina (ensinar a verdade e corrigir o erro) como para a ética (repreender o pecado e orientar para uma vida correta), levando-nos assim adiante na fé cristã e no comportamento cristão, até que nos tornemos homens e mulheres de Deus, "perfeita­mente habilitados para toda boa obra" (v. 17). Assim (como veremos mais demoradamente no próximo capítulo) a Bíblia tem um papel essencial a desempenhar em nosso cresci­mento  até atingirmos a maturidade em  Cristo.  Em contraposição aos enganos dos "homens perversos e im­postores", Timóteo deveria continuar na Palavra de Deus, tanto nas Escrituras do Antigo Testamento como nos ensinos do apóstolo.
Graças a Deus pela Bíblia! Deus não nos deixou tateando às cegas na escuridão, mas deu-nos uma luz para indicar o caminho. Ele não nos abandonou debatendo-nos em mares revoltos; a Escritura é uma rocha na qual encontrar chão e firmeza. Nossa resolução deveria ser estudá-la, crer nela e obedecê-la.

Pregando a Palavra

Nem Timóteo nem ninguém mais tem o direito de mono­polizar as Escrituras. Afinal, a Escritura não é propriedade privada de ninguém: ela é propriedade pública. Ela foi dada por Deus e pertence a todos. Sua Palavra foi anunciada a fim de ser passada adiante. Assim o apóstolo, consciente da presença de Deus e do futuro aparecimento de Cristo para nos julgar (4.1), dá a Timóteo este encargo: "Prega a palavra" (v. 2). Ele deve proclamá-la como um arauto ou como uma sentinela em praça pública. E deve fazê-lo com ousadia, urgência e relevância, corrigindo, repreen­dendo e encorajando de acordo com o estado e a necessi­dade das pessoas, e "com toda a longanimidade e doutrina" (v. 2).
Isto se faz ainda mais necessário, acrescentou Paulo, porque está chegando o tempo em que as pessoas "não suportarão a sã doutrina". Mas estas, acometidas de um estranho estado patológico chamado "coceira nos ouvi­dos", irão dar ouvidos a ensinadores que dizem o que elas querem ouvir, ao invés de anunciar-lhes a verdade que Deus quer lhes dizer (vs. 3-4). Mas a indisposição de alguns para dar ouvidos à Palavra de Deus não é razão para nós dei­xarmos de anunciá-la! Pelo contrário, Timóteo deve per­severar, ser sóbrio, suportar as aflições e cumprir fielmente o seu ministério, tanto como evangelista quanto como mestre (v. 5).
Uma das maiores necessidades da igreja contemporânea é que se exponha a Bíblia conscientemente no púlpito (veremos isso mais adiante, no capítulo 13). Existe, por toda parte, uma grande ignorância, até mesmo quanto aos rudimentos da fé. Muitos cristãos são instáveis e imaturos. E a principal razão para este triste estado de coisas é a escassez de pregadores bíblicos equilibrados, radicais e responsáveis. O púlpito não é lugar de discutir as nossas próprias opiniões, mas, sim, de expor a Palavra de Deus.
O clímax da exortação do apóstolo encontra-se nos versículos 6 a 8. Em uma carta anterior, escrita cerca de dois anos antes, ele se descrevera como "o velho". Agora ele escreve que chegou a hora de sua partida. De fato, sua vida já começou a ser "oferecida por libação" (v. 6). Relembrando sua carreira apostólica, ele pode dizer que combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé (v. 7). Ele nada tem a lamentar. Provavelmente está encarcerado nos subterrâneos da Prisão Mamertina em Roma, da qual não espera mais sair. Já com os olhos da imaginação ele vê o lampejo da espada do executor e, mais além desta, "a coroa da justiça" que, no último dia, Jesus, o reto Juiz, dará tanto a ele como "a todos quantos amam a sua vinda" (v. 8). Ele sente que o seu ministério está chegando ao fim, o que o move a exortar Timóteo a que fique firme na Palavra, permaneça nela e passe-a adiante.
Espero que não me julguem pessoal demais se eu disser que sinto e compreendo a intensidade das palavras de Paulo — se bem que, obviamente, eu não tenha a presunção de comparar-me a ele. Mas eu escrevo estas palavras ao mesmo tempo em que acabo de comemorar meus setenta anos de vida. Com esta idade, não espero viver muito mais tempo. Cada novo dia é um bônus que recebo com gratidão das mãos de Deus.
E assim eu fico me perguntando: onde estão os "timóteos" da próxima geração? Onde estão os jovens homens e mu­lheres evangélicos que estão determinados, pela graça de Deus, a ficar firmes na Palavra, recusando-se a deixar-se levar pelos ventos prevalecentes do espírito deste mundo; que estão decididos a permanecer na Escritura e a viver por ela, relacionando a Palavra com o mundo e obedecendo a ela; e que assumiram o compromisso de passá-la adiante, dedicando-se ao ministério de expor a Bíblia com toda consciência?

FONTE:
OUÇA O ESPÍRITO, OUÇA O MUNDO
John Stott
ABU EDITORA
Cuadro de texto: 


















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